O que se entende por Humanidades para finalidades de ensino
médico?
O termo Medical Humanities é normalmente atribuído a
Moore, um cirurgião australiano que em 1976 utilizou a literatura no ensino médico
com o objetivo de aumentar nos alunos a sua capacidade de compreensão da
vivência humana [1] e de entendimento dos problemas éticos [2].
Essencialmente, a expressão é utilizada referida a um
conjunto de áreas onde a Literatura, a História e a Filosofia têm um lugar
preponderante, mas não se esgota aí. Vejamos em pormenor:
A inclusão da Filosofia no ensino da Medicina
parte do princípio de que aquela tem muito para oferecer
ao futuro médico para além da bioética. Numa reflexão pessoal, salientamos dois aspectos relativamente
distintos que consideramos essenciais:
Primeiro - as questões epistemológicas, onde se incluem
dois objetivos:
- Perceber as limitações do método científico, inserido num
objectivo mais global, que é o de perceber a génese e as limitações do Conhecimento
humano.
- Perceber o que faz da Medicina um campo de conhecimento e de
actuação próprios ou, nos termos de Heinz Heckhausen [3], perceber a sua
disciplinaridade como ponto essencial para permitir o diálogo com as outras
áreas do conhecimento.
Qualquer ensino
de uma disciplina na universidade deveria começar pela explicação do seu
caracter de disciplina – a sua “disciplinaridade” – a fim de tornar o estudante
atento às possibilidades e aos limites da disciplina que escolheu (Heckhausen 2006,
p. 84).
Importa ter presente que a Medicina se constitui como disciplina
tendo como ponto agregador uma prática – o exercício de uma profissão - mas usa
conhecimentos de múltiplas origens muitas vezes sem consciência da diferença
significativa entre os métodos que permitiram chegar a esses conhecimentos.
Segundo: As questões axiológicas - observar que os
valores de cada um, na sua individualidade, e os valores que partilha
com o conjunto dos seus colegas têm uma contextualização histórica, existem em
determinado local e época de onde são inseparáveis, mas são simultaneamente
herdeiros de uma tradição ou, se preferirmos, de uma herança histórica, na qual
problemas comuns aos de hoje foram resolvidos por vezes de forma diferente e
por vezes de forma igual, mas onde a forma como os tratamos hoje não é possível
de separar da forma como foram tratados no passado.
Naturalmente que neste ponto, é necessário introduzir a História,
mas isso é tanto mais inevitável quanto as fronteiras são muitas vezes
artificiais, já que nos parece que não que se pode compreender a ideia
filosófica isolada do contexto histórico que a gerou, nem perceber o facto
histórico de forma independente das ideias que o produziram.
Quanto à História da Medicina, parece-nos
sobretudo essencial precaver-nos para a tendência para uma História fácil – à
partida aquela que o estudante, tal como
cidadão comum, tende a gostar mais - feita de pequenas histórias
isoladas que tendem a restringir-se aos feitos dos médicos célebres e às
descobertas médicas mais relevantes, e que constitui o equivalente médico
daquela pseudo-História que se resumia a falar dos reis, imperadores e das suas
batalhas e conquistas, como se a História das civilizações se resumisse apenas
a isso.
A História da Medicina serve essencialmente mas nos ajudar na nossa própria compreensão, a perceber porque somos assim e não de outra maneira
e para ajudar a que não repitamos os mesmos erros.
Por sua vez, a Literatura e a Arte têm na formação
do médico um papel que, tendo pontos em comum com todos anteriores, permite, como
é próprio da Arte, educar a sensibilidade. Podendo-se dizer que a Filosofia e a
História são os campo da razão, a Arte é o campo da emoção - e todos sabemos - António Damásio salienta-o
desde a primeira das suas obras mais emblemáticas [4] - que sem emoções não há
inteligência.
A Arte tem ainda outros papéis não negligenciáveis, que é o da
educação da atenção e o do cultivo do pormenor e ainda de escola para se
aprender aquilo que poderíamos chamar, em linguagem simples, de “um outro olhar
sobre as coisas”.
No contexto das humanidades médicas, é ainda incluído nos anos
mais recentes, a importância da Narrativa para o exercício da medicina,
aspecto que pensamos valer a pena observar mais tarde com um pouco mais de
pormenor.
Adaptado de:
Viana JS (2012). O ensino do conceito de autonomia e a formação do médico como pessoa. Colóquio Internacional Autonomia e Vulnerabilidade. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 22 de Março de 2012.
Referências:
1. Moore A (1976). Medical
Humanities – a new medical adventure. New England Journal of Medicine. 295:
1479-80.
2. Moore A (1977). Medical Humanities – an aid to ethical
discussions. Journal of Medical Ethics. 3: 26-32.
3. Heckhausen H (2006). Disciplina e Interdisciplinaridade. In
Olga Pombo, Henrique Manuel Guimarães e Teresa Levy, eds: Interdisciplinaridade
- uma Antologia. Porto: Campo das Letras, pp. 79-89.
4. Damásio A (1996). O erro de Descartes. Tradução de Dora
Vicente e Georgina Segurado de Descartes’ Error: Emotion, Reason, and the Human
Brain. Mem Martins: Publicações Europa-América.
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