Todos os grandes filósofos do passado foram competentes numa ciência e muitas vezes em várias: Platão era geómetra, Descartes matemático, etc. [...]. Não há filosofia sem história da filosofia. [...] É talvez a função da filosofia retomar incessantemente o «caminho» do método.

Paul Ricoeur: A filosofia actual - Entrevista (1976)

A divisão da investigação humana em disciplinas distintas pode ser útil para organizar os departamentos académicos, mas tem pouco interesse quanto estamos a tentar descobrir como é o mundo [...]. Alguns filósofos acreditam que a filosofia é uma investigação pura, que pode ser desenvolvida à margem das ciências. Não partilho essa ideia. A melhor forma de abordar os problemas da filosofia é usar todos os recursos disponíveis.

James Rachels: Problemas da Filosofia

terça-feira, 1 de maio de 2012

O que são Humanidades Médicas?


O que se entende por Humanidades para finalidades de ensino médico?

O termo Medical Humanities é normalmente atribuído a Moore, um cirurgião australiano que em 1976 utilizou a literatura no ensino médico com o objetivo de aumentar nos alunos a sua capacidade de compreensão da vivência humana [1] e de entendimento dos problemas éticos [2].

Essencialmente, a expressão é utilizada referida a um conjunto de áreas onde a Literatura, a História e a Filosofia têm um lugar preponderante, mas não se esgota aí. Vejamos em pormenor:

A inclusão da Filosofia no ensino da Medicina parte do princípio de que aquela tem muito para oferecer ao futuro médico para além da bioética. Numa reflexão pessoal, salientamos dois aspectos relativamente distintos que consideramos essenciais:
Primeiro - as questões epistemológicas, onde se incluem dois objetivos:
-      Perceber as limitações do método científico, inserido num objectivo mais global, que é o de perceber a génese e as limitações do Conhecimento humano.
-     Perceber o que faz da Medicina um campo de conhecimento e de actuação próprios ou, nos termos de Heinz Heckhausen [3], perceber a sua disciplinaridade como ponto essencial para permitir o diálogo com as outras áreas do conhecimento.

Qualquer ensino de uma disciplina na universidade deveria começar pela explicação do seu caracter de disciplina – a sua “disciplinaridade” – a fim de tornar o estudante atento às possibilidades e aos limites da disciplina que escolheu (Heckhausen 2006, p. 84).

Importa ter presente que a Medicina se constitui como disciplina tendo como ponto agregador uma prática – o exercício de uma profissão - mas usa conhecimentos de múltiplas origens muitas vezes sem consciência da diferença significativa entre os métodos que permitiram chegar a esses conhecimentos.

Segundo: As questões axiológicas - observar que os valores de cada um, na sua individualidade, e os valores que partilha com o conjunto dos seus colegas têm uma contextualização histórica, existem em determinado local e época de onde são inseparáveis, mas são simultaneamente herdeiros de uma tradição ou, se preferirmos, de uma herança histórica, na qual problemas comuns aos de hoje foram resolvidos por vezes de forma diferente e por vezes de forma igual, mas onde a forma como os tratamos hoje não é possível de separar da forma como foram tratados no passado.

Naturalmente que neste ponto, é necessário introduzir a História, mas isso é tanto mais inevitável quanto as fronteiras são muitas vezes artificiais, já que nos parece que não que se pode compreender a ideia filosófica isolada do contexto histórico que a gerou, nem perceber o facto histórico de forma independente das ideias que o produziram. 

Quanto à História da Medicina, parece-nos sobretudo essencial precaver-nos para a tendência para uma História fácil – à partida aquela que o estudante, tal como  cidadão comum, tende a gostar mais - feita de pequenas histórias isoladas que tendem a restringir-se aos feitos dos médicos célebres e às descobertas médicas mais relevantes, e que constitui o equivalente médico daquela pseudo-História que se resumia a falar dos reis, imperadores e das suas batalhas e conquistas, como se a História das civilizações se resumisse apenas a isso.
A História da Medicina serve essencialmente mas nos ajudar na nossa própria compreensão, a perceber porque somos assim e não de outra maneira e para ajudar a que não repitamos os mesmos erros.


Por sua vez, a Literatura e a Arte têm na formação do médico um papel que, tendo pontos em comum com todos anteriores, permite, como é próprio da Arte, educar a sensibilidade. Podendo-se dizer que a Filosofia e a História são os campo da razão, a Arte é o campo da emoção -  e todos sabemos - António Damásio salienta-o desde a primeira das suas obras mais emblemáticas [4] - que sem emoções não há inteligência.

A Arte tem ainda outros papéis não negligenciáveis, que é o da educação da atenção e o do cultivo do pormenor e ainda de escola para se aprender aquilo que poderíamos chamar, em linguagem simples, de “um outro olhar sobre as coisas”. 

No contexto das humanidades médicas, é ainda incluído nos anos mais recentes, a importância da Narrativa para o exercício da medicina, aspecto que pensamos valer a pena observar mais tarde com um pouco mais de pormenor.


Adaptado de: 

Viana JS (2012). O ensino do conceito de autonomia e a formação do médico como pessoa. Colóquio Internacional Autonomia e Vulnerabilidade. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 22 de Março de 2012.


Referências:
1. Moore A (1976). Medical Humanities – a new medical adventure. New England Journal of Medicine. 295: 1479-80.
2.  Moore A (1977). Medical Humanities – an aid to ethical discussions. Journal of Medical Ethics. 3: 26-32.
3. Heckhausen H (2006). Disciplina e Interdisciplinaridade. In Olga Pombo, Henrique Manuel Guimarães e Teresa Levy, eds: Interdisciplinaridade - uma Antologia. Porto: Campo das Letras, pp. 79-89.
4. Damásio A (1996). O erro de Descartes. Tradução de Dora Vicente e Georgina Segurado de Descartes’ Error: Emotion, Reason, and the Human Brain. Mem Martins: Publicações Europa-América.